Coluna | O que leva um pai a jogar o próprio filho de uma ponte? A ciência explica o lado sombrio da mente humana

Não existe uma única explicação, mas a ciência pode nos ajudar a lançar luz sobre alguns fatores psicológicos que podem estar envolvidos.
Em situações de violência interpessoal, especialmente aquelas que envolvem pais e filhos, é crucial considerar o contexto de saúde mental do agressor. Estudos indicam que indivíduos que cometem atos de violência grave frequentemente apresentam histórico de transtornos mentais, como depressão severa, transtorno bipolar, transtornos de personalidade antissocial ou borderline, e até mesmo psicoses (Fazel et al., 2014). Essas condições podem afetar profundamente a capacidade de uma pessoa de processar emoções, tomar decisões racionais e controlar impulsos.
No caso específico de um pai que usa o filho para manipular ou punir a ex-esposa, podemos observar uma dinâmica de poder distorcida e uma dificuldade extrema em lidar com o término do relacionamento. A raiva, o ressentimento e o sentimento de perda podem ser tão intensos que obscurecem o senso de responsabilidade e o amor pelo próprio filho. Essa atitude pode estar ligada a traços de personalidade narcisista, onde a necessidade de atenção e controle sobre o outro se torna prioritária, mesmo que isso coloque em risco a vida de uma criança (Ronningstam, 2016).
A tentativa de “chamar a atenção” da ex-esposa através de um ato tão violento sugere um desespero profundo e uma incapacidade de comunicação saudável. Em vez de buscar diálogo ou resolução de conflitos de maneira construtiva, o agressor recorre a uma ação extrema na tentativa de provocar uma reação na outra pessoa. Essa pode ser uma manifestação de um padrão de comportamento manipulador já existente na relação, que se intensifica após a separação.
É importante ressaltar que o sofrimento emocional intenso e a desesperança podem levar a comportamentos impulsivos e irracionais. Em momentos de crise, a capacidade de avaliar as consequências de seus atos fica comprometida. O indivíduo pode estar tão focado em sua própria dor e em seu desejo de retaliar ou reconquistar o parceiro que não consegue dimensionar o impacto de suas ações sobre o filho (O’Leary, 2019).
Além disso, o uso de uma criança como instrumento em um conflito parental é uma forma grave de abuso infantil. Testemunhar ou ser vítima de violência, mesmo que indiretamente, pode causar danos psicológicos profundos e duradouros nas crianças (Hughes et al., 2017). O medo, a insegurança e a confusão podem afetar o desenvolvimento emocional e social da criança, além de aumentar o risco de problemas de saúde mental no futuro.
É fundamental que casos como esse sejam tratados com a seriedade que merecem, tanto do ponto de vista da justiça quanto da saúde mental. Oferecer apoio psicológico tanto para a criança quanto para a mãe é essencial para ajudá-los a lidar com o trauma. Da mesma forma, é crucial que o agressor receba avaliação e tratamento psiquiátrico adequados para entender as causas de seu comportamento e prevenir futuras tragédias.
Em suma, a mente de um pai que comete um ato tão horrendo é provavelmente marcada por sofrimento psíquico significativo, dificuldades em lidar com emoções e conflitos, e uma visão distorcida das relações interpessoais. Compreender os fatores psicológicos envolvidos, com base em evidências científicas, é um passo importante para a prevenção da violência e para a proteção de crianças vulneráveis.

 

Texto: Luam Ferrari

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