Oscar 2025

Por Leonardo Lima*

Pelo quarto ano consecutivo, o Oscar terá dez longas-metragens concorrendo à estatueta de Melhor Filme, certamente a mais cobiçada da cerimônia organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS – Academy of Motion Picture Arts and Sciences, na sigla em inglês). Estabelecida a partir da 94° edição realizada em 2022, a indicação obrigatória de uma dezena de filmes para a principal categoria da premiação mais badalada da indústria cinematográfica tem sido alvo de muita controvérsia, acumulando tanto defensores como detratores da ideia. Longe de esgotar o debate em torno dessa questão, este texto, a partir da lista dos dez filmes concorrentes ao Oscar 2025, pretende esboçar uma breve reflexão com o objetivo de expor a pertinência ou não dos argumentos apresentados em ambos os lados da disputa.

Muito se fala que o aumento do número de indicados ao Oscar leva à formação de uma lista de menor densidade, permitindo que obras de qualidade duvidosa ou abaixo das demais fossem alçadas ao status de “Melhor Filme” apenas para se ajustar à obrigatoriedade da regra. É bem provável que O Beco do Pesadelo, de Guillermo del Toro; Entre Mulheres, de Sarah Polley; Maestro, de Bradley Cooper; Triângulo da Tristeza, de Ruben Östlund; e o próprio oscarizado CODA – No Ritmo do Coração, de Sian Heder, não teriam ingressado numa lista composta por apenas cinco títulos. São obras que tendem a ser menos lembradas com o decorrer do tempo – para não dizer que beiram o esquecível –, e, de certo modo, dão razão aos detratores do formato atual de lista.

Por outro lado, porém, dificilmente veríamos filmes como Drive My Car, de Ryūsuke Hamaguchi; Vidas Passadas, de Celine Song; Ficção Americana, de Cord Jefferson; Zona de Interesse, de Jonathan Glazer; Nickel Boys, de RaMell Boss; e Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, caso a lista fosse mais restrita como outrora – por sinal, a presença do longa brasileiro dentre os dez indicados ao Oscar 2025 aumenta consideravelmente suas chances na categoria Melhor Filme Internacional, em disputa direta com o francês Emilia Pérez (também indicado a Melhor Filme, graças ao milionário marketing da Netflix), e, sobretudo, as de Fernanda Torres para Melhor Atriz, em concorrência bastante acirrada com Demi Moore (A Substância) e Mikey Madison (Anora). Como se observa, as obras mais beneficiadas com a expansão ocorrida há alguns anos geralmente são aquelas produzidas de maneira mais ou menos independente – inclusive por cineastas negros –, ou, então, fora dos Estados Unidos, longe do auspicioso ambiente de Hollywood e seus poderosos estúdios de cinema.

Um outro ponto que faz muita gente virar o nariz é a presença de blockbusters entre os dez concorrentes, algo por vezes visto como uma espécie de estratégia que acena para o público em geral, potencialmente capaz de agregar nos índices de audiência da cerimônia do Oscar. Assim, questiona-se o status de Melhor Filme do ano para obras como Top Gun: Maverick, de Joseph Kosinski; Barbie, de Greta Gerwig; Wicked, de Jon M. Chu; e, até mesmo, Duna: Parte I e Duna: Parte II, de Denis Villeneuve. Uma grande bobagem, no fim das contas, pois a história da sétima arte é repleta de filmes que souberam aliar, de maneira graciosa e eficiente, características inegáveis de uma obra de arte filmada com elementos de apelo popular que atraem multidões de espectadores às salas de cinema. Afirmar o contrário, portanto, revela preconceito, inveja do sucesso alheio ou simplesmente desconhecimento quanto à história cinematográfica.

Os defensores de uma lista ampliada do Oscar advogam que a mesma oferece melhores condições para que (sub)gêneros tradicionalmente esnobados na categoria principal – terror, comédia, fantasia (incluindo-se, aqui, os derivados filmes de super-heróis), animação e documentário – tenham a oportunidade de serem reconhecidos pelos votantes da Academia. Esse certamente é o caso de A Substância, da francesa Coralie Fargeat, que muito dificilmente teria entrado numa lista com apenas cinco candidatos.

Parece-nos oportuno dizer, deste modo, que os atuais membros da Academia, ainda que preservem uma predileção explícita por obras que se assumem como dramas (com viés preferencialmente histórico), suspenses ou cinebiografias – como bem atestam os indicados neste ano O Brutalista, de Brady Corbet; Conclave, de Edward Berger; Anora, de Sean Baker; Um Completo Desconhecido, de James Mangold; e Emilia Pérez, de Jacques Audiard –, tendem a estar mais receptivos a acolher filmes representativos de uma maior pluralidade no fazer cinematográfico. Não serei ingênuo nem irrealista a ponto de negar a influência de fatores como o orçamento disponibilizado para a montagem de poderosas estruturas de campanha em prol de um determinado filme, ou mesmo o lobby de bastidores movido por interesses diversos. Além disso, o Oscar permanece sendo um prêmio cinematográfico cuja existência tem o intuito básico de afagar o ego das pessoas que fazem a indústria do cinema estadunidense, bem como engenhosamente mantê-la na hegemonia do cenário cinematográfico global por intermédio do soft power.

Todavia, num contexto histórico no qual o consumo da sétima arte não necessariamente se subordina aos tradicionais padrões de produção, distribuição e exibição de filmes, mais difuso graças aos streamings e às heterodoxas tecnologias de compartilhamento de material audiovisual, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas parece ter se dado conta de que é preciso ampliar o leque de sua principal premiação anual, com vistas a abarcar outras formas de fazer cinema, as quais poucas vezes tiveram a devida chance de brilhar ao Sol – não à toa, também aumenta o número de votantes internacionais. Sabemos que isso provavelmente é o resultado de uma estratégia de manutenção da relevância do Oscar a nível mundial, haja vista a ameaça simbólica de festivais como Cannes, Veneza, Berlim e Sundance, costumeiramente mais plurais e universais e com alcance cada vez mais crescente entre a cinefilia e o público mais amplo. Mas se tal mudança, com o passar dos anos, puder realmente vir a se tornar uma marca estabelecida do Oscar, todos sairão ganhando, sobretudo o cinema feito em Hollywood, que poderá vivenciar uma nova fase de criatividade e pujança.

*Sociólogo e crítico de cinema

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